Por muito tempo, o homem místico das religiões e tradições espirituais tem, por vezes, se evadido de todo o campo da ação concreta no mundo, considerada contaminadora. Tem-se insistido em um ideal de pureza que consiste em estar afastado dos assuntos mundanos e colocado em uma perseguição individual pelo esclarescimento próprio e auto-conhecimento.
Por quanto tempo ainda guardarão esse sentimento como louvável? Esse que se baseia profundamente na alienaçao de um aspecto natural, na repressão de si? Não posso discordar que o auto-conhecimento seja a base para um crescimento maior e amadurecimento da personalidade e do próprio eu em algo mais forte e mais abrangente, que realmente incentiva nossos irmãos com um exemplo digno. A pergunta é: qual o valor de isolar-se das questões mundanas nessa tarefa? Argumentarão alguns que, para melhor se colocar no mundo, o indivíduo deve primeiro se iluminar e depois voltar para o convívio dos homens já transformado.
Não consigo crer no valor de uma iluminação espiritual conseguida longe das chamadas "odiosas e perniciosas influências materialistas", justamente pela concepção covarde e moralista que se coloca nessa afirmação. Ao opor o mundano ao místico, coloca-se ainda sim a dualidade alienante e cria-se um instrumento de auto-punição chamado ascese - praticado pelos ascetas. Posso melhor explicar:
Ao aceitar que os prazeres, gozos e interferências do mundo são considerados perigosos, a base dessa salvação está no medo e na repressão de seus impulsos, e assim, a punição de isolar-se se torna iluminadora, revelando-se uma trincheira contra esse mundo vil e perdido que está lá fora, onde os homens bebem, mentem, fornicam, conhecem as notícias e conversas fúteis que a nada levam e todo tipo de coisa que se resume como má, não-espiritual e irresponsável. Assim, demonizamos um aspecto importantíssimo, que é o próprio mundo e um aspecto saudável da natureza: a natureza humana em evolução.
Pelo contrário, acredito que o convívio na comunidade humana, o conhecimento de suas causas e mesmo aspectos positivos e negativos pode apenas vir para uma melhor contemplação de si mesmo, já que na própria formação do nosso eu individual, o meio humano determinou muitos comportamentos e concepções que até mesmo levaram-nos a buscar a iluminação espiritual em primeiro lugar, seja por contraste com um aspecto que se considera profano, seja por convicção religiosa e/ou espiritual individual.
Acreditar na natureza essenscialmente má do mundo e da massa humana é render-se a uma ideologia de que é preciso purgar-se e punir-se, de que algo em nossos desejos é a raíz de nosso problema. Em suma, é uma crença falsa na impureza natural do humano. E, na realidade, esses desejos e prazeres que se rejeita nada têm de profanos ou danosos, pois, de fato, surgem da própria natureza. O cosmo é a fonte sagrada da existência. Ele inclui e abrange todos os nossos aspectos, mesmo aqueles ao qual atribui-se culpa por confusão interior.
Não podemos esquecer que toda experiência traz o aprofundamento da compreensão sobre a real essência interior das coisas, e que a matéria e o mundo são, de fato, reais. Aquele que vive afirmando ser essa realidade uma ilusão está desperdiçando preciosas energias, ao invés de melhora-las e fazer realmente que circulem amorosamente.
O novo místico deve ser um homem do mundo e mundano, além de um profundo meditador e pensador. É preciso renovar essa via que prega a dualidade e abraçar em uníssono as manifestações. Se muitas vezes são equivocadas, não é fugindo delas que conseguiremos transmuta-las em algo superior, mas apenas acrescentando ao grande diálogo entre os humanos e a natureza práticas e pensamentos elevados e que suscitam a união e a cura a todos os seres.
O novo místico luta sim. Ele combate na linha frontal pela libertação sumária da humanidade, pela compreensão e aceitação das coisas, e não uma aceitação passiva, mas uma energia ativa que metamorfoseia a si e a outros em algo maior e realmente harmonioso. Os sábios silenciosos são indivíduos alienados de uma faixa rica de energias que está ao nosso redor e à nossa disposição para nos utilizarmos para o bem maior.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Observo da grama, deitado, as estrelas distantes numa noite sem lua. Estou no escuro e posso ver perfeitamente bem um mar brilhante de estrelas radiantes contra o negro azul do infinito, imaginando se nesses sóis distantes orbitam planetas e asteroides, e quão longe estará tudo isso. Alguns cientistas dizem que parte dessas estrelas podem nem mesmo estar mais lá... Não sei.
Quão infinitamente pequenino sou eu, no meu gramado, deitado com as formigas a correr meus braços, o cabelo sujo atrás... Sorrio da minha pequenez, da pequenez da minha real compreensão sobre toda a natureza. Como dar um sentido ao que é? Decerto que o sentido está nos olhos que vêm.
Já não quero mais compreender esse céu ou essa vida, mas sob ele me perceber e perceber o ritmo da Terra, um planeta voando num ponto qualquer onde estou deitado, num mar de ar perfumado pelas flores e ouvindo o canto dos insetos noturnos. Isso é toda a explicação que satisfaz a minha dúvida - essa música das cigarras, dos grilos, de folhas sendo acariciadas invisivelmente pelo vento.
Assim me encontro emocionado de repente e fecho os olhos. A minha respiração e o meu coração parecem estar tão tranquilos que estão cantando baixinho seus ruídos normalmente tão despercebidos. O tempo e o espaço evadem da minha mente e eu já não estou preocupado com mais nada. Por alguns segundos, sinto tanta alegria por existir que de pequenino me desdobro, me faço imenso, transbordando de dentro de mim para cada coisa ao meu redor.
Inexplicável e perene é este momento. Abro meus olhos novamente e estou quase chorando e rindo ao mesmo tempo, possuído pelo sublime toque de amor que invade meu ser, não vindo de fora nem de dentro, mas escorregando pela profundidade incompreensível de dimensões que minha mente não calcula nem julga conhecer, mas apenas pressente...
Quando estou voltando, penso comigo mesmo sobre muitas pessoas e coisas da vida, sem nem prestar atenção ao que vem diante dos olhos da minha mente. Imagens infinitas repletas de significado, sentimentos e nomes passam diante de mim e eu apenas percebo meus passos e o caminho de terra diante de mim. Falta luz aqui, mas eu estou seguro na minha casa, que é o cosmo vivo.
sábado, 1 de outubro de 2011
Um hino do Santo Daime
Flor das águas, de onde vens, para onde vais?
Vou fazer a minha limpeza. No coração está meu pai
A morada do meu pai é no coração do mundo
Onde existe todo o amor e tem um segredo profundo
Esse segredo profundo está em toda a humanidade
Se todos se conhecerem aqui dentro da verdade
O Santo Daime é uma igreja de muitas tendências que faz um sincretismo de cristianismo com religião indígena. Gosto muito de alguns dos seus hinos, mas não muito de seu conceito sobre rituais e a moralidade cristã que prega, embora tenha total respeito por eles.
Vou fazer a minha limpeza. No coração está meu pai
A morada do meu pai é no coração do mundo
Onde existe todo o amor e tem um segredo profundo
Esse segredo profundo está em toda a humanidade
Se todos se conhecerem aqui dentro da verdade
O Santo Daime é uma igreja de muitas tendências que faz um sincretismo de cristianismo com religião indígena. Gosto muito de alguns dos seus hinos, mas não muito de seu conceito sobre rituais e a moralidade cristã que prega, embora tenha total respeito por eles.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
無為 (Wu wei - inação)
"Sem abrir sua porta,
você pode abrir seu coração para o mundo.
Sem olhar de sua janela,
você pode ver a essência do Curso.
Quanto mais você sabe,
menos compreende.
O Mestre chega sem sair,
vê a luz sem olhar,
tem sucesso sem agir."
Laozi
-
Inação não significa inatividade ou completa passividade, mas sim a ação pela via de menor resistência. Se aplica aos atos humanos não fruitivos e se aplica também à percepção despretensiosa. Na religião ou misticismo humanos temos concepções que se cristalizam em crença e afirmação. A inação não consiste em belos ideais. A visão da vida se atém ao nível interior e puro, pois cada afirmação carrega consigo uma negação e isso não está dentro de nós. A negação e a afirmação se confundem - são manifestações da psique.
O que é a pureza? Sobre o bem e o mal temos confusão o bastante para gerar discórdia e danos. Quando aqueles que definem as coisas procuram impo-las, as pessoas não sabem mais confiar na sua visão própria.
"Na busca do conhecimento, todo dia algo é adicionado. Na prática do Curso, todo dia algo é deixado". Assim, se tem contato com aquilo que é primordial e vem do interior.
A inação pode se tornar em atos quando isso vem naturalmente, no sentido do Curso, que é a união e o esclarecimento, pois a compreensão da multiplicidade está na unidade. Não há roteiros para conhecer o caminho, já que está dentro e pode ser visto claramente quando a quietude se dá no seio do ser.
Assim, a inação é o caminho que cumpre todas as tarefas, é o próprio caminho pelo qual tudo se faz em todo o Cosmo.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Mãe e Pai
O Pai vêm à Mãe e a inunda com sua energia. A Mãe, de fecundidade infinita, dá a luz às formas infinitas e nutre a existência. O Pai a auxilia e sempre fornece a força para que a Mãe possa nutrir as formas. A Mãe faz o trabalho de manifestar todo o Universo que vem de sua união com o Pai, e o Pai a ajuda a ensinar suas crianças.
Nós somos os filhos. O Pai é a força positiva e celeste. A Mãe é a força negativa e terrena. Nenhuma das duas forças sobrepuja a outra, nem é mais importante. A luz e as trevas se apóiam. O espírito e a matéria são conseqüência um do outro.
O Pai Celeste e a Mãe Terra se dividem apenas porque nossa mente enxerga pares de oposição. O Pai-Mãe é um ser só. No mundo dos fenômenos, essas forças parecem diferentes, mas no fundo, são apenas uma dança de unidade, na qual estamos nós e todos os seres.
Dentro de nós reside essa realização mística da união do Pai e da Mãe, dos nossos aspectos espirituais e materiais. Tudo se funde. Tudo é união e cópula. O Deus-Deusa somos nós e a natureza eternamente juntos, cantando a canção sagrada da vida.
Nós somos os filhos. O Pai é a força positiva e celeste. A Mãe é a força negativa e terrena. Nenhuma das duas forças sobrepuja a outra, nem é mais importante. A luz e as trevas se apóiam. O espírito e a matéria são conseqüência um do outro.
O Pai Celeste e a Mãe Terra se dividem apenas porque nossa mente enxerga pares de oposição. O Pai-Mãe é um ser só. No mundo dos fenômenos, essas forças parecem diferentes, mas no fundo, são apenas uma dança de unidade, na qual estamos nós e todos os seres.
Dentro de nós reside essa realização mística da união do Pai e da Mãe, dos nossos aspectos espirituais e materiais. Tudo se funde. Tudo é união e cópula. O Deus-Deusa somos nós e a natureza eternamente juntos, cantando a canção sagrada da vida.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Deus e a religião
Quando falo em Deus, definitivamente não estou falando em religião! Toda a confusão precisa ser desfeita. Está no cerne do pensamento que nos é ensinado que uma coisa leva a outra, ou seja, que Deus é assunto das religiões, e este é um engano antigo.
De forma alguma as religiões podem conter em si o que é divino. Elas tomam o rumo oposto, ainda que seus discursos sejam tão convincentes e movam a fé de tantos. Por que digo que as religiões se afastam de Deus? Observemos sua ação.
Embora em todas as fés existam pessoas que tem vislumbres do sagrado, a maioria das pessoas envolvidas com elas, sobretudo os diversos tipos de ministros e sacerdotes, certamente não os têm. Isso não é exclusividade de nenhuma fé. Em todas elas, pessoas se apoderaram dos ensinos de grandes mestres para confundir, conter e delimitar o ser humano em seu potencial, logo eles mesmos não podem ser pessoas em contato com a graça divina.
Posso explicar. Aqueles que realmente compreendem o plano do divino e do espiritual compreendem que este é um caminho de infinitas vias, pois cada ser tem uma aptidão e uma forma de estabelecer contato com Deus. As religiões, entretanto, afirmam ser o melhor, senão o único caminho de comunhão com a divindade (seja uma entidade ou diversas), reprimindo as práticas individuais e arrebanhando fiéis, com a pretensão de deter especial direito sobre a vida e a moral dessas pessoas. Isso chama-se lavagem cerebral.
Sim, as religiões organizadas praticam a incapacitação das massas para Deus. Nessas religiões, aqueles que alcançaram realmente a compreensão são sempre pessoas atípicas dentro de seu círculo, pessoas especialmente tolerantes e desligadas das hierarquias mundanas, que sabem ver nas entrelinhas a luz. Como um ser realmente divino pretenderia ser melhor que seu irmão aos olhos de Deus, ou pior, como poderia crer que é capaz de dizer a ele o que deve fazer ou não?
Pois cada ser manifesta uma porção da divindade e tem em si o potencial do contato direto com o divino e pode muito bem lidar com seus atos, sejam bons ou ruins, já que essa é sua estrada apenas e ele está aqui neste mundo para aprender com seus caminhos. Quando a religião injeta culpa na mente das pessoas e aponta o erro do próximo, ela desempenha um papel na direção do obscurecimento, das trevas.
O divino está em todas as partes. É natural de nossa espécie a percepção do divino, o olhar para além do material, a compreensão da espiritualidade e a aptidão para o auto-conhecimento. Ninguém pode se colocar entre um homem e Deus. A conversa é de dois que são um por natureza. Já está incutido no homem a centelha divina. Nenhum terceiro cabe aqui, uma vez que não existe. Todos os seres são partes de Deus e contém em si todo o poder divino, se despertarem para sua real natureza. Acaba a multidão e sobra apenas Deus. Nosso mundo é tão pleno de estupidez e ceticismo justamente porque as tradições tão onipresentes sempre tentam minar o potencial da humanidade em todos os campos. No campo espiritual, essas tradições se chamam religião organizada.
De forma alguma as religiões podem conter em si o que é divino. Elas tomam o rumo oposto, ainda que seus discursos sejam tão convincentes e movam a fé de tantos. Por que digo que as religiões se afastam de Deus? Observemos sua ação.
Embora em todas as fés existam pessoas que tem vislumbres do sagrado, a maioria das pessoas envolvidas com elas, sobretudo os diversos tipos de ministros e sacerdotes, certamente não os têm. Isso não é exclusividade de nenhuma fé. Em todas elas, pessoas se apoderaram dos ensinos de grandes mestres para confundir, conter e delimitar o ser humano em seu potencial, logo eles mesmos não podem ser pessoas em contato com a graça divina.
Posso explicar. Aqueles que realmente compreendem o plano do divino e do espiritual compreendem que este é um caminho de infinitas vias, pois cada ser tem uma aptidão e uma forma de estabelecer contato com Deus. As religiões, entretanto, afirmam ser o melhor, senão o único caminho de comunhão com a divindade (seja uma entidade ou diversas), reprimindo as práticas individuais e arrebanhando fiéis, com a pretensão de deter especial direito sobre a vida e a moral dessas pessoas. Isso chama-se lavagem cerebral.
Sim, as religiões organizadas praticam a incapacitação das massas para Deus. Nessas religiões, aqueles que alcançaram realmente a compreensão são sempre pessoas atípicas dentro de seu círculo, pessoas especialmente tolerantes e desligadas das hierarquias mundanas, que sabem ver nas entrelinhas a luz. Como um ser realmente divino pretenderia ser melhor que seu irmão aos olhos de Deus, ou pior, como poderia crer que é capaz de dizer a ele o que deve fazer ou não?
Pois cada ser manifesta uma porção da divindade e tem em si o potencial do contato direto com o divino e pode muito bem lidar com seus atos, sejam bons ou ruins, já que essa é sua estrada apenas e ele está aqui neste mundo para aprender com seus caminhos. Quando a religião injeta culpa na mente das pessoas e aponta o erro do próximo, ela desempenha um papel na direção do obscurecimento, das trevas.
O divino está em todas as partes. É natural de nossa espécie a percepção do divino, o olhar para além do material, a compreensão da espiritualidade e a aptidão para o auto-conhecimento. Ninguém pode se colocar entre um homem e Deus. A conversa é de dois que são um por natureza. Já está incutido no homem a centelha divina. Nenhum terceiro cabe aqui, uma vez que não existe. Todos os seres são partes de Deus e contém em si todo o poder divino, se despertarem para sua real natureza. Acaba a multidão e sobra apenas Deus. Nosso mundo é tão pleno de estupidez e ceticismo justamente porque as tradições tão onipresentes sempre tentam minar o potencial da humanidade em todos os campos. No campo espiritual, essas tradições se chamam religião organizada.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Caos e ordem
Embarcando em reflexões sobre a vida e como é vista pelas tradições do mundo, eu compus algo rústico e mal delineado. Desejo compartilhar:
A vida é contradição e cansaço
Não há paz
Realizar a paz em si é possível
Mas os intercâmbios com o meio
Jamais cessam
O homem sábio se forja na dificuldade
Ele aprende a paz no caos
Pois o mundo é eterna tensão
O mundo é mudança constante
E inconstância no nível superficial
Há uma profunda ordem
Que se sustenta apenas no caos
Pois a aparência de ordem
É estagnação e caos por dentro
Isso o homem sábio percebe
Por perder a esperança na ordem
E confiar no caos do mundo
Lá ele cria mudanças boas
Isso é a condição do sorriso
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